Prefcio
A percepo  um dos principais temas da psicologia cientfica, tanto do ponto de vista histrico,
como da abrangncia de seu campo de estudos. Em 1879, Wilhelm Wundt (1832-1920), usualmente 
citado como o pai da psicologia cientfica, fundou, em Leipzig, o primeiro laboratrio de psicologia 
experimental, no qual estudou principalmente a percepo humana. 
O mesmo interesse pela percepo humana norteou as escolas de psicologia que se sucederam, ou 
seja, a dos introspeccionistas, dos funciona- listas e dos gestaltistas. A escola behaviorista foi uma 
exceo, focalizando sua ateno em mudanas de comportamento devidas a processos de 
aprendizagem. Mas mesmo esta corrente da psicologia no esteve totalmente livre de preocupar-se 
com aspectos da percepo. 
A percepo, portanto, constitui-se num campo muito abrangente da psicologia, j que sempre h 
estmulos externos e internos responsveis pelos comportamentos dos organismos. Denominamos 
estmulos queles aspectos do ambiente e do organismo que so percebidos. A percepo  a porta 
de entrada para toda a informao que a pessoa recebe e processa, o que por si s j justifica o seu 
estudo. Mas a percepo no  somente a porta de entrada para os estmulos,  tambm uma janela 
para a observao dos pesquisadores. Atravs desta janela o pesquisador pode vislumbrar o 
funcionamento do crebro e conjecturar sobre os processos mentais. E no  este o objetivo final da 
Psicologia? So numerosos os exemplos de funes fisiolgicas inicialmente descobertas atravs 
desta janela da percepo. 
Falamos de percepo de um modo geral, mas o leitor notar muito 
prontamente que este livro restringe-se  percepo humana, dando maior 
nfase  percepo visual, em detrimento dos outros sentidos, abordados 
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de maneira mais uperficial. O motivo principal para esta nfase  que o ser humano  um animal 
predominantemente visual. Nenhum outro, nem mesmo os outros primatas, tem seu sentido de viso to 
desenvolvido e to verstil. A guia pode ter maior acuidade visual que o homem, mas sua viso de cores  
deficiente; a abelha possui uma viso de cores relativamente melhor que a do ser humano, mas sua acuidade  
extremamente pobre; certas aranhas que habitam permanentemente em cavernas escuras so muito sensveis a 
intensidades mnimas de luz, mas no apresentam viso de cores e sua acuidade visual  quase nula. Por outro 
lado, os outros sentidos do ser humano, como o olfato, a gustao e a audio, so relativamente menos 
desenvolvidos que a viso. Um segundo motivo para uma maior nfase na percepo visual  o simples fato de 
tratar-se do sentido mais estudado. 
Neste livro so tratados os diferentes assuntos de psicologia da percepo de uma maneira simples e objetiva. 
Evitamos os relatos longos e detalhados e omitimos numerosos experimentos realizados sobre assuntos 
especficos. Procurou-se enfatizar os principais resultados experimentais e suas concluses. Obviamente, em 
cincia no existem concluses definitivas. Foram omitidos tambm os aspectos controvertidos, a fim de dar 
maior clareza ao texto. Convm, no entanto, mencionar que so numerosas as controvrsias no estudo da 
percepo e, ao dar nfase a uma ou outra explicao, fazemos opes, que sabemos serem pessoais. 
Discutimos alguns aspectos histricos e metodolgicos, os principais aspectos neurofisiolgicos e 
caractersticas e tcnicas de mensurao utilizadas em estudos de percepo. Assim, passamos pela 
psicofsica, percepo de brilho, espao, tamanho e forma, para que pudssemos chegar s constncias 
perceptivas. Abordamos a percepo de tempo, de movimento, de eventos e causalidade, de pessoas, de 
emoes e do prprio corpo. Fizemos tambm uma reviso do desenvolvimento perceptivo em recm- nascidos 
e crianas, para a seguir avaliar os efeitos da aprendizagem, motivao e cultura sobre a percepo. Estes 
assuntos esto reunidos em dois volumes desta coleo (10-1 e 10-lI). 
Este texto pode ser utilizado por alunos de Cursos de Psicologia e cursos afins, como, por exemplo, Medicina, 
Enfermagem, Odontologia, Fisioterapia, Propaganda, Sociologia e Artes Visuais. O texto tambm pode ser de 
interesse para o leitor no-estudante. Em parte ele foi baseado na experincia que os autores tiveram ao 
ministrar a disciplina Psicologia da Percepo para alunos de graduao de Cursos de Psicologia, o que lhe 
confere certos aspectos acadmicos. Trata-se de um texto introdutrio, o que significa dizer que  
abrangente e no se aprofunda em demasia nos tpicos tratados. Como tal, prepara o leitor para o estudo de 
textos mais especficos e avanados sobre o assunto. Foi tambm com esta perspectiva que organizamos a 
bibliografia, que no  uma relao das fontes consultadas para a redao deste livro, tratando-se antes de 
mais nada de um le vantament 
bibliogrfico dos principais compndios e manuais de Psicologia da Percepo, que poderiam constituir-se em 
leituras complementares. 
O leitor verificar que a quase totalidade das pesquisas mencionadas foram elaboradas por cientistas 
estrangeiros. Gostaramos de poder, em breve, ver um maior nmero de psiclogos brasileiros atuando na rea 
da Psicologia da Percepo. 
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